Virgínia Moura
🇵🇹
Virgínia Moura nasceu a 19 de Julho de 1915 em Guimarães (S. Martinho do Conde). Filha de uma professora primária, que sendo mãe solteira enfrentou situações de injustiça, incluindo da própria família, pelo facto de ter sido mãe sem ser casada.
Apesar de ter sido rejeita pelo pai e avós, teve uma infância feliz em S. Martinho do Conde, “ vivi ali uma infância feliz e alegre…Os habitantes dessa terra foram a minha primeira família. A verdadeira aceitou mal o meu nascimento e tanto o meu avô como os meus tios mais velhos cortaram relações com a minha mãe, durante dez anos” (MOURA, Virgínia 1996).
Com dez anos prepara-se para entrar no liceu. A guerra acabara há pouco tempo, as consequências ainda se sentiam, as dificuldades económicas aumentaram. Para ir para o Liceu teve que obter notas suficientes para a bolsa de estudo. Um dia seu avô encontrou-a na casa de uma prima, no Porto. Foi ter com ela e beijou-a com as lágrimas nos olhos. A partir desse momento sua mãe pode contar com o seu apoio. Nos anos 20 transferem-se para Vila de Conde. Tudo passou a ser mais difícil. A mãe quase não saia de casa a não ser para dar aulas, e Virgínia Moura era rejeitada pelas colegas “A nossa vida não foi fácil. Lembro-me de ouvir colegas do Liceu dizerem, baixinho, que gostariam que eu fosse a casa delas, mas que tal não podia ser porque o meu pai não era casado com a minha mãe” (MOURA, Virgínia, 1996).
Nessa altura, Virgínia Moura e sua mãe, recebiam a visita de um familiar que a marcou. Ele simpatizava com o socialismo, lia muito e emprestava-lhe livros que falavam de um outro mundo diferente, “Saber da existência de países onde uma mulher não seria tratada como a minha mãe foi e como eu era…”. Ficou marcada com outra ocorrência, a morte de um estudante de nome Branco, numa iniciativa académica no Porto.
Nos anos 30 foi estudar para o Porto. No liceu, feminino, sentiu-se marginalizada, tanto por colegas como por alguns professores, pensou mesmo deixar de estudar. Foi então que conheceu António Lobão Vital, participante de todas as guerras académicas da altura, que ambicionava, também, um mundo diferente. Virgínia Moura encontrou o companheiro da sua vida. Naquela altura não fazia ideia do que era um partido, apenas pressentia a possibilidade de fazer algo para modificar a situação existente à sua volta, as injustiças, a coação, o medo.
Virgínia Moura e António Lobão Vital foram extraordinários obreiros de pequenas e grandes lutas pela liberdade, pacientes construtores da unidade antifascista, assumindo exemplarmente um confronto, sem concessões, com o regime opressor vigente. Foram, manifestamente, dois dos mais destacados rostos legais do PCP (ainda na clandestinidade). Constituíram uma referência, política e moral, fundamental para gerações de jovens, de trabalhadores e distintos intelectuais.
Em 1933, Virgínia Moura ligou-se ao PCP tendo nesse ano participado na organização da secção portuguesa do Socorro Vermelho (Organização de Socorro aos Presos Políticos Portugueses e Espanhóis). Foi a primeira mulher portuguesa a obter o título de engenheira civil, foi-lhe negado o acesso à Função Pública, pois a ficha policial já então a assinalava como séria opositora da ditadura fascista. Cursou ainda Matemáticas e frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra. Desenvolveu uma intensa actividade cultural no Porto nos anos quarenta e cinquenta, tendo colaborado (sob o pseudónimo de Maria Selma) em vários jornais e revistas, promovido a edição da revista «Sol Nascente» e diversas conferências com a participação de Teixeira de Pascoais, Maria Isabel Aboim Inglês e Maria Lamas.
A sua intensa, firme e corajosa actividade política contra o regime fascista levou-a, em 1949, à primeira prisão o que, até ao 25 de Abril, viria a repetir-se 15 vezes. Nove vezes processada e três vezes condenada, agredida inúmeras vezes pela polícia política (PIDE) durante actos públicos de afirmação democrática, a vida de Virgínia Moura foi um confronto constante com o fascismo. Participou nos combates do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e do Movimento Nacional Democrático; nas batalhas políticas em torno das “presidenciais” com as candidaturas de Norton de Matos, de Ruy Luís Gomes, de Humberto Delgado; nos congressos da oposição democrática e nas campanhas políticas de massas desenvolvidas em torno das farsas eleitorais para a chamada Assembleia Nacional, em 1969 e 1973; nas pequenas e grandes lutas contra a repressão, pela solidariedade com os presos políticos, pela melhoria das condições de vida do povo, pela igualdade e afirmação dos direitos das mulheres e da sua participação na vida política, pela criação das condições que conduziram ao derrubamento do fascismo e à Revolução de Abril, de que foi igualmente participante entusiástica.
Depois do 25 de Abril e nas novas condições de liberdade, Virgínia Moura continuou a luta em defesa e consolidação do regime democrático, pelas transformações capazes de assegurar uma sociedade mais justa, por um Portugal de Abril rumo ao socialismo.
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🇬🇧
Virgínia Moura was born on July 19, 1915 in Guimarães (S. Martinho do Conde). Daughter of a primary school teacher, who, as a single mother, faced situations of injustice, including from her own family, due to the fact that she was a mother without being married.
Despite being rejected by her father and grandparents, she had a happy childhood in S. Martinho do Conde, “I lived a happy and joyful childhood there…The inhabitants of that land were my first family. The real one took my birth badly and both my grandfather and my older uncles cut ties with my mother for ten years” (MOURA, Virgínia 1996).
At the age of ten he prepares to enter high school. The war had recently ended, the consequences were still being felt, the economic difficulties increased. To go to high school he had to get enough grades for the scholarship. One day her grandfather found her at a cousin's house in Porto. He went to her and kissed her with tears in his eyes. From that moment on, your mother can count on your support. In the 1920s they moved to Vila de Conde. Everything became more difficult. Her mother almost never left the house except to teach, and Virgínia Moura was rejected by her colleagues “Our life was not easy. I remember hearing schoolmates say, quietly, that they would like me to come to their house, but that it couldn't be because my father wasn't married to my mother” (MOURA, Virgínia, 1996).
At that time, Virgínia Moura and her mother received a visit from a family member who left an impression on her. He sympathized with socialism, read a lot and lent her books that spoke of another different world, “Knowing about the existence of countries where a woman would not be treated like my mother was and like I was…”. It was marked by another incident, the death of a student named Branco, in an academic initiative in Porto.
In the 1930s he went to study in Porto. At the female high school, she felt marginalized, both by her classmates and some teachers, and she even thought about stopping studying. It was then that he met António Lobão Vital, a participant in all the academic wars of the time, who also aspired to a different world. Virgínia Moura found the partner of her life. At that time I had no idea what a party was, I just sensed the possibility of doing something to change the situation around us, the injustices, the coercion, the fear.Virgínia Moura and António Lobão Vital were extraordinary workers in small and large struggles for freedom, patient builders of anti-fascist unity, exemplarily undertaking a confrontation, without concessions, with the current oppressive regime. They were, clearly, two of the most prominent legal faces of the PCP (still in hiding). They constituted a fundamental political and moral reference for generations of young people, workers and distinguished intellectuals.
In 1933, Virgínia Moura joined the PCP and that year participated in the organization of the Portuguese section of Socorro Vermelho (Relief Organization for Portuguese and Spanish Political Prisoners). She was the first Portuguese woman to obtain the title of civil engineer, she was denied access to the Public Service, as her police record already marked her as a serious opponent of the fascist dictatorship. He also studied Mathematics and attended the Faculty of Arts of Coimbra. She developed an intense cultural activity in Porto in the forties and fifties, having collaborated (under the pseudonym Maria Selma) in several newspapers and magazines, promoting the edition of the magazine «Sol Nascente» and several conferences with the participation of Teixeira de Pascoais, Maria Isabel Aboim English and Maria Lamas.Her intense, firm and courageous political activity against the fascist regime led her, in 1949, to her first arrest, which, until the 25th of April, would be repeated 15 times. Prosecuted nine times and convicted three times, attacked countless times by the political police (PIDE) during public acts of democratic affirmation, Virgínia Moura's life was a constant confrontation with fascism. He participated in the fights of the MUD (Democratic Unity Movement) and the National Democratic Movement; in the political battles surrounding the “presidential elections” with the candidacies of Norton de Matos, Ruy Luís Gomes, Humberto Delgado; in the congresses of the democratic opposition and in the mass political campaigns developed around the electoral farces for the so-called National Assembly, in 1969 and 1973; in the small and large struggles against repression, for solidarity with political prisoners, for the improvement of the people's living conditions, for the equality and affirmation of women's rights and their participation in political life, for the creation of the conditions that led to the overthrow of the fascism and the April Revolution, of which she was an equally enthusiastic participant.
After the 25th of April and in the new conditions of freedom, Virgínia Moura continued the fight in defense and consolidation of the democratic regime, for transformations capable of ensuring a more just society, for a Portugal of April towards socialism.
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Virgínia Moura nasceu a 19 de Julho de 1915 em Guimarães (S. Martinho do Conde). Filha de uma professora primária, que sendo mãe solteira enfrentou situações de injustiça, incluindo da própria família, pelo facto de ter sido mãe sem ser casada.
Apesar de ter sido rejeita pelo pai e avós, teve uma infância feliz em S. Martinho do Conde, “ vivi ali uma infância feliz e alegre…Os habitantes dessa terra foram a minha primeira família. A verdadeira aceitou mal o meu nascimento e tanto o meu avô como os meus tios mais velhos cortaram relações com a minha mãe, durante dez anos” (MOURA, Virgínia 1996).
Com dez anos prepara-se para entrar no liceu. A guerra acabara há pouco tempo, as consequências ainda se sentiam, as dificuldades económicas aumentaram. Para ir para o Liceu teve que obter notas suficientes para a bolsa de estudo. Um dia seu avô encontrou-a na casa de uma prima, no Porto. Foi ter com ela e beijou-a com as lágrimas nos olhos. A partir desse momento sua mãe pode contar com o seu apoio. Nos anos 20 transferem-se para Vila de Conde. Tudo passou a ser mais difícil. A mãe quase não saia de casa a não ser para dar aulas, e Virgínia Moura era rejeitada pelas colegas “A nossa vida não foi fácil. Lembro-me de ouvir colegas do Liceu dizerem, baixinho, que gostariam que eu fosse a casa delas, mas que tal não podia ser porque o meu pai não era casado com a minha mãe” (MOURA, Virgínia, 1996).
Nessa altura, Virgínia Moura e sua mãe, recebiam a visita de um familiar que a marcou. Ele simpatizava com o socialismo, lia muito e emprestava-lhe livros que falavam de um outro mundo diferente, “Saber da existência de países onde uma mulher não seria tratada como a minha mãe foi e como eu era…”. Ficou marcada com outra ocorrência, a morte de um estudante de nome Branco, numa iniciativa académica no Porto.
Nos anos 30 foi estudar para o Porto. No liceu, feminino, sentiu-se marginalizada, tanto por colegas como por alguns professores, pensou mesmo deixar de estudar. Foi então que conheceu António Lobão Vital, participante de todas as guerras académicas da altura, que ambicionava, também, um mundo diferente. Virgínia Moura encontrou o companheiro da sua vida. Naquela altura não fazia ideia do que era um partido, apenas pressentia a possibilidade de fazer algo para modificar a situação existente à sua volta, as injustiças, a coação, o medo.
Virgínia Moura e António Lobão Vital foram extraordinários obreiros de pequenas e grandes lutas pela liberdade, pacientes construtores da unidade antifascista, assumindo exemplarmente um confronto, sem concessões, com o regime opressor vigente. Foram, manifestamente, dois dos mais destacados rostos legais do PCP (ainda na clandestinidade). Constituíram uma referência, política e moral, fundamental para gerações de jovens, de trabalhadores e distintos intelectuais.
Em 1933, Virgínia Moura ligou-se ao PCP tendo nesse ano participado na organização da secção portuguesa do Socorro Vermelho (Organização de Socorro aos Presos Políticos Portugueses e Espanhóis). Foi a primeira mulher portuguesa a obter o título de engenheira civil, foi-lhe negado o acesso à Função Pública, pois a ficha policial já então a assinalava como séria opositora da ditadura fascista. Cursou ainda Matemáticas e frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra. Desenvolveu uma intensa actividade cultural no Porto nos anos quarenta e cinquenta, tendo colaborado (sob o pseudónimo de Maria Selma) em vários jornais e revistas, promovido a edição da revista «Sol Nascente» e diversas conferências com a participação de Teixeira de Pascoais, Maria Isabel Aboim Inglês e Maria Lamas.
A sua intensa, firme e corajosa actividade política contra o regime fascista levou-a, em 1949, à primeira prisão o que, até ao 25 de Abril, viria a repetir-se 15 vezes. Nove vezes processada e três vezes condenada, agredida inúmeras vezes pela polícia política (PIDE) durante actos públicos de afirmação democrática, a vida de Virgínia Moura foi um confronto constante com o fascismo. Participou nos combates do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e do Movimento Nacional Democrático; nas batalhas políticas em torno das “presidenciais” com as candidaturas de Norton de Matos, de Ruy Luís Gomes, de Humberto Delgado; nos congressos da oposição democrática e nas campanhas políticas de massas desenvolvidas em torno das farsas eleitorais para a chamada Assembleia Nacional, em 1969 e 1973; nas pequenas e grandes lutas contra a repressão, pela solidariedade com os presos políticos, pela melhoria das condições de vida do povo, pela igualdade e afirmação dos direitos das mulheres e da sua participação na vida política, pela criação das condições que conduziram ao derrubamento do fascismo e à Revolução de Abril, de que foi igualmente participante entusiástica.
Depois do 25 de Abril e nas novas condições de liberdade, Virgínia Moura continuou a luta em defesa e consolidação do regime democrático, pelas transformações capazes de assegurar uma sociedade mais justa, por um Portugal de Abril rumo ao socialismo.
Ano Letivo 2022/23
Academic Year 2022/23

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